Os trovões rosnavam do céu e as poucas pessoas que se escondiam da chuva e do frio debaixo de seus casacos e guarda-chuvas decidiram correr para uma marquise e se abrigar. Se abrigar do que estava por vir, uma tempestade de fim de inverno. A natureza parecia estar revoltada, mas nada que eles temessem, a vida deles é cheia demais para dar tempo a uma coisa tão comum. Mal sabem eles que a vida fica muito chata quando nada nos causa estranheza. A natureza sempre tenta surpreender, mas os humanos são sempre tão distraídos com suas rotinas obcecantes que não se dão o prazer de perceber.
Alguns olhares em volta e o cheiro de café faziam o lugar perfeito para um abrigo seguro. Sentou-se numa mesa vazia logo a esquerda e pediu um cappuccino, parecia mais apropriado para a ocasião.Tirou as luvas e pôs o casaco na cadeira ao lado. Ficou olhando as gotas de chuva que lavavam a vitrine. Ainda haviam pessoas correndo de um lado para outro na rua, estavam com pressa. Por que tanto medo de se molhar? É só água. Ah se todos tivessem a noção de que somos feitos de água. Não digo que soubessem, mas que se dessem conta. As vezes só a informação não é suficiente.
Com o tempo a cafeteria estava ficando cheia e a chuva parecia enfim ter atingido seu ápice, mal dava para ver o que havia do outro lado da rua. A calçada aos poucos estava sendo invadida pela água que não estava sendo escoada para o esgoto. Nestas situações os bueiros nunca funcionam, se é a população pobre que joga lixo na rua , por que os bueiros ficam entupidos no centro da cidade? Como as propagandas são engraçadas. Deviam mostrar os engenheiros jogando latas de refrigerante pela janela do carro e não uma mãe de família jogando lixo no riacho. Não que um esteja mais certo que o outro, mas as verdades tem que ser ditas em suas totalidades.
Com a lotação do local os lugares vagos foram sumindo e causando até um certo empurra-empurra, com licença entre outros artifícios linguísticos que tem um significado óbvio; falta de espaço. Enquanto isso num canto mais afastado havia um grupo de jovens conversando alegremente.Pareciam não se importar com o que estava acontecendo em volta. O supra-sumo da alienação. Mas alguns minutos depois um deles parou para comentar da chuva e de como estava ficando cada vez mais forte. Olhou na direção das cadeiras da esquerda e encontrou o seu olhar e meio que desviando a atenção da conversa continuava olhando em determinados períodos de tempo. Dizia, nossa que chuva, dizia, é só água, dizia, não tenho medo, e num instante perguntou, você tem? E olhou de novo.
Era um desafio? Que falta de respeito, mal sabia quem era e atirava uma pergunta tão insolente. Óbvio que não era direcionada, mas com certeza afetou a calma que sentia. Isso não podia ficar assim. Levantou-se da mesa deixando tudo o que estava carregando para trás. Andou em direção ao garoto e olhou-o nos olhos. Chegando a metade do caminho se virou para a porta e saiu para a rua. A chuva invadiu sua roupa molhando tudo o que estava vestindo. As gotas eram grandes e pesadas, batiam em sua testa e escorriam pelo rosto, percorriam todo pescoço e sumiam quando chegavam ao peito.
Os cabelos já pingavam de tanta água e a chuva caía no chão com tanta força que levantava lama sujando a barra da calça. Girava em torno de si, pulava e chutava. As luzes foram apagando e o céu estava escuro, não podia enxergar o que acontecia, mas sentia. Os carros pararam com os faróis ligados, os bueiros jorravam, chorava, estava encharcado. Assim era o momento, era gelado mas incontidamente alegre. Sorria ao mesmo tempo. Fora surpreendido. Que felicidade ser homem, ser natureza, ser água.
